NIEBUHR E A NEO-ORTODOXIA NORTE AMERICANA
Não
pode haver nenhuma dúvida quanto à evidência de ser Reinhold Niebuhr o teólogo
americano mais importante hoje. Isso é admitido tanto pelos que discordam dele
como pelos que o seguem. Não há nenhum teólogo que tenha causado maior impacto
sobre o público do que o fez Niebuhr. Seus livros são lidos avidamente, mesmo
por pessoas que normalmente não “morrem de amores” por leituras relacionadas
com teologia.
Niebuhr,
professor do Union Theological Seminary,
agiu como figura proeminente em um número enorme de outros empreendimentos. Foi
líder do movimento ecumênico dentro do protestantismo. Concorreu em diversas
ocasiões a postos oficiais, sob a legenda socialista e, depois, chegou aos
escalões de cúpula do Partido Liberal em Nova York. Por ter sido um dos
primeiros políticos liberais a perceberem a natureza e o perigo do comunismo,
tornou-se um dos pais fundadores de entre os americanos da “Ação Democrática”.
Poucos são os cristãos que deram tanto tempo e ajuda à causa sionista como
Niebuhr. De maneira incompreensível, ele encontrou tempo para escrever
numerosos livros, editar dois jornais de cunho religioso e fazer parte do corpo
editorial de algumas revistas seculares. Seus artigos apareceram em inúmeras
publicações religiosas e seculares.
Caso
queiramos entender mesmo a teologia de Niebuhr, temos de levar em consideração
que não se trata de algo elaborado em ambiente tranqüilo nem acadêmico. É
teologia produzida na sua vida turbulenta e nos enormes esforços que fez de
aplicar o cristianismo às esferas sociais, econômicas e políticas da vida. O
pensamento característico de Niebuhr sempre parte do que é humano, material e
social. Ele não se voltou para a ortodoxia simplesmente pelo fato de ser
ortodoxia, nem por virtude de ela estar associada com alguma espécie de
autoridade dogmática. Ele aceitou seus postulados por encontrar neles as mais
adequadas respostas aos problemas da vida em sociedade.
Niebuhr
formou-se num dos seminários existentes no pais em 1915 quando sustentava as
teses da teologia liberal. Ele acreditava na bondade de Deus e do homem,
afirmava a importância de fazer tudo pela aplicação do Sermão do Monte ao todo
da existência e tinha a esperança otimista de que o Reino de Deus haveria de se
instalar sobre a terra dentro de um futuro relativamente próximo. Caso tivesse
se tornado pastor de uma das igrejas da classe média nos subúrbios das grandes
cidades, talvez ele nunca tivesse se tornado um teólogo de renome. Entretanto,
ele foi, entretanto, para uma igreja em Detroit, constituída de crentes
pertencentes a classes trabalhadoras, onde pôde contemplar bem ao vivo os
problemas com que os trabalhadores se debatiam, inteirando-se das táticas
empregadas para a supressão das organizações que promoviam a união dos
trabalhadores e do trágico dispêndio de valores humanos que a América estava
fazendo para conseguir sua industrialização acelerada. Ele começou, então, a
ter dúvidas de que os problemas da época pudessem ser resolvidos de modo
simples, como a teologia que tinha abraçado lhe fazia crer.
Com o
passar do tempo, os fatos grosseiros da existência forçaram Niebuhr a entender
que a ortodoxia cristã seria mais realista e mais respeitável intelectualmente
do que a teologia liberal. Efetivamente, Niebuhr deseja que consideremos sua
teologia como simples redescoberta da sabedoria da ortodoxia cristã, que se
encontrava tão ofuscada. Isso não significa dizer que ele se tivesse voltado
para o fundamentalismo. O emprego que ele faz do termo “mito” torna bem claro
que isso não aconteceu.
As
relações do homem para com Deus, isto é, do finito para com o infinito, não
serão jamais expressas em termos racionais e lógicos, entende Niebuhr. Podem
sê-lo somente mediante a adoção de mitos, tais como os do relato da criação e
da queda presentes no livro de Gênesis. Em religião, como cremos, tratamos com
mistérios e experiências tão profundos da existência que resistem a todos os
esforços que façamos no sentido de conseguir descrevê-los de modo nítido.
Niebuhr compara a teologia com o que fazem os pintores, que, tendo de trabalhar
sobre superfície plana, precisam dar a ilusão de perspectiva, como se houvesse
uma outra dimensão, isto é, profundidade. Trata-se de uma forma de ilusionismo,
mas um expediente legítimo para que nos retrate a verdade a ser contemplada.
Semelhantemente, o teólogo sente necessidade de oferecer-nos uma descrição da
divindade e dos processos pelos quais opera, mediante maneiras de dizer
características do mundo existente no espaço e no tempo. Entretanto, sabe-se
que Deus transcende ao mundo de modo que nenhuma das expressões que usemos para
descrevê-lo corresponderá à realidade divina. Por outro lado, a divindade não é
só transcendente, ela é também imanente e ativa no universo, e isso faz com que
nos seja possível dizer algo a propósito de Deus. Uma vez que nossa lógica
temporal pode expressar-se, porém não de modo adequado a respeito de Deus, tem-se
o direito de, assim como o pintor faz, lançar mão de símbolos que dêem
impressão da existência de outra dimensão da realidade. A teologia, em
conseqüência, vem a ser uma tentativa de expressar as dimensões da profundidade
própria da existência. Niebuhr emprega o termo “mito” para dar-nos idéia do que
se passa com o pensamento que a teologia sistematiza. O termo é, talvez, menos
feliz, pois sabe- se que está associado aos contos de fada. Entretanto, Niebuhr
o emprega com a significação de que, embora não expresse a verdade com exatidão
científica, possibilita tratar-se de verdades que não possam exprimir-se
adequadamente por nenhuma outra maneira. Será, então, algo que pode ser
considerado como ilusório, mas verdadeiro, exatamente como acontece com o ilusionismo
da profundidade no caso dos artistas.
O
fundamentalismo toma o mito como literalmente verdadeiro e, por isso, entra em
conflito com a ciência, por exemplo, a propósito da evolução. O caso, porém, é
que uma interpretação literalista das Escrituras Sagradas não resulta só em
ciência absurda, mas também em religião falsa. Resulta em simplificar-se demais
a relação de Deus com o universo. O liberalismo, por outro lado, passou a
considerar os mitos tão- somente como expressões de vulgaridade, como se não passassem
de especulações pré-científicas. Niebuhr, entretanto, insiste em que devemos
tomar os mitos com seriedade, mas não entendê-los como literalmente
verdadeiros. Ao serem assim interpretados, os mitos passam a revelar-nos uma
intuição admirável no sentido do relacionamento existente entre Deus e o homem.
Por exemplo, o relato concernente a Adão e Eva não nos descreve como teria sido
efetivamente o primeiro homem e a primeira mulher, pois é uma representação
intelectual da situação pertinente a todo homem e toda mulher.
Niebuhr
encontra na história do cristianismo duas atitudes para com a razão. Uma delas
entende ser o cristianismo inteiramente irracional, isto é, o situa acima da
inacessível à razão. Ele não pode ser demonstrado nem ser objeto de investigações
através do exercício da razão; qualquer teologia natural deve ser considerada
como coisa idolátrica e as tentativas de provar a veracidade da revelação não
passam de atitude presunçosa. Niebuhr afirma que tanto Kierkegaard como Barth
merecem essa crítica. Entende o teólogo americano que essa é uma atitude
perigosa, por concorrer para que se anule a significado do evangelho.