Estarei desenvolvendo um estudo na Epistola de Tiago, que podera compreender três postagens, pois este conteudo e material contido nas Escrituras Sagradas, é uma epistola de cunho parenético, ou seja material que possue: Instrução, exortação e ordem; o mesmo que encontramos nos escritos de Salomão no Antigo Testamento, ou seja em Proverbios e Eclesiastes. Começarei abordando sobre o propósito e a estrutura e conteudo desta epistola geral.
Propósito
O autor escreveu para dar conselho prático e encorajar aqueles que estavam sendo oprimidos. A carta foi escrita para corrigir certas tendências conhecidas na conduta, para confrontar os cristãos com as responsabilidades da vida cristã. Deve-se observar que nos seus 108 versículos há 54 imperativos, tornando o estilo da carta paranésis (instrução ética e exortação). Foi escrita como literatura de sabedoria derivada de experiência pessoal, não apenas de teoria. Esta carta é um quadro da vida cristã primitiva em meio às mais difíceis condições sociais e num ambiente que não era simpático, se não completamente hostil.Alguns olharam com suspeita para esta carta por causa de uma evidente falta de instrução teológica cristã. Não há nenhuma discussão doutrinária acerca da morte e ressurreição de Jesus, da justificação pela fé, e Jesus não é apresentado como o supremo exemplo de vida justa. Contudo, há muita coisa acerca do cristianismo que é evidente. Há termos e expressões tais como "Segundo à sua própria vontade, ele nos gerou" (1:18), "a palavra em vós implantada" (1:21), "herdeiros do reino" (2:5), e "o bom nome pelo qual sois chamados" (2:7). O autor não esconde sua visão acerca da natureza de Jesus, pois em 1:1, as palavras "do Senhor Jesus Cristo" apontam para seu papel (Cristo), sua função (Jesus: Salva¬dor) e sua divindade essencial (Senhor). Através da carta, o termo "Senhor", por analogia com 1:1 e 2:1, refere-se a Jesus (1:7,12;2:1; 4:10,15; 5:4,7,8,10,11,14,15). Em 2:1 Jesus é o objeto da fé e, assim, da adoração. A carta dá discreto testemunho da divindade de Jesus. Ele é o juiz, que está à porta (5:9), e seu nome é o recurso do cristão, tanto na doença quanto no pecado (5:13-15). Em 2:1, o cristianismo é descrito como crença no "Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória". Muitos, seguindo Martinho Lutero, que denominou esta epístola uma "epístola bem desviada", criticaram esta carta, porque acham que ela contradiz a doutrina paulina da justificação pela fé. Lutero estava emergindo de uma situação na história em que a fé no Senhor Jesus havia-se tornado completamente subjugada às obras. Isto era quase que a mesma situação que Paulo confrontara, e como resultado ele escreveu Gálatas e Romanos. Para Paulo, assim como para Lutero, era um momento para se definir os elementos básicos do cristianismo: fé no Senhor Jesus Cristo. Mas Tiago escreveu antes da grande controvérsia entre Paulo e os judaizantes, entre a fé e as obras. Tiago não batalhou com Paulo; ele escreveu para contra-atacar a tendência humana para o antinomianismo. Tiago insistiu que a fé deve ser demonstrada pelo viver correto. De fato, o viver incorreto é prova de nenhuma fé (no Senhor Jesus Cristo) ou de uma fé morta (2:14-26). Paulo teve que lutar contra o legalismo judaico: as bases para a salvação; Tiago lutava contra o viver imoral e não-ético. Tiago nada diz acerca das "obras da lei"; ele afirma, sim, que o fruto da fé deve ser comportamento tanto ético como moral. A fé deve produzir o viver justo, o fruto do Espírito que Paulo relaciona em Gálatas 5:16-26. Paulo e Tiago não estavam combatendo um ao outro. Como um fato, eles representam dois aspectos do cristianismo, opondo-se a diferen¬tes inimigos do evangelho. As pessoas a quem Tiago estava escrevendo não eram desprovidas de ortodoxia. Se elas fossem desprovidas das doutrinas básicas do cristianis¬mo, ele teria corrigido isso, e nós teríamos outro livro sobre doutrina. O que ele escreveu foi sobre uma falha no viver diário prático, não teoria. Este livro seria sem valor se ficasse sozinho. Ele não assenta os alicerces da fé cristã (como Paulo e os escritores do evangelho o fazem); mas mostra a necessidade de edificar-se uma vida cristã honesta sobre o alicerce já construído (ver I Cor. 3:10-15). As faltas contra as quais Tiago escreveu (fé sem obras, palavras sem atos, censuras, ambição, amor desordenado pelo ensino, dar lugar à riqueza e à posição, tratamento depreciativo dos pobres, cobiça sob a capa de religião) eram e são tipicamente farisaicas. Tiago estava exortando seus leitores a transcende¬rem o judaísmo formalístico na prática, como já o haviam transcendido em sua fé no Senhor Jesus Cristo. Eles haviam aceito Jesus como o Cristo (Messias); agora, que eles se portem como verdadeiros discípulos do Senhor, não como os discípulos dos fariseus.
ESTRUTURA E CONTEÚDO
A Epístola de Tiago, de maneira lógica, divide-se em três seções desi¬guais: 1:2-2:26; 3:1-18; 4:1-5:20. O versículo introdutório é a saudação comum da correspondência normal do mundo antigo: o escritor identifica-se, e a seus leitores e os saúda com xairei=n (xaírein). Não há nenhu¬ma saudação formal de encerramento. Também não há nenhuma bênção. O restante da carta é autoritário, mas nem afetado nem altivo. Há 54 imperativos nestes 108 versículos do corpo da carta. O autor escreve e exorta como um pastor, a partir de sua experiência pessoal, para ajudar seus leitores no viver uma vida cristã prática.O assunto básico da primeira divisão é a verdade contrastada com a hipocrisia ou imitação. Tiago afirma que a realidade na vida cristã é e tem que ser distinta da falsidade ou imitação. Este contraste entre a realidade e a falsidade é visto em quatro aspectos diferentes da vida cristã: 1) no caráter (1:2-18); 2) na adoração pública (1:19-27); 3) no amor (2:1-13); 4) na fé (2:14-26) . A segunda divisão, 3:1-18, refere-se aos pretensiosos, que querem ser mestres. Tiago afirma que um mestre leva sobre si uma grande respon¬sabilidade e um perigo correspondente (3:1-12). O uso da facilidade de falar deve ser guardado em todo o tempo; a língua é difícil de ser controlada, e o único modo de controlar a língua e ser um bom mestre é ser capaz de distinguir entre a sabedoria deste mundo (3:13-16) e a verdadeira sabedoria, proveniente de Deus (3:17,18). A última seção, 4:1-5:20, fala do mundo, que está em oposição a Deus, e como o cristão deve viver nesta comunidade antagônica. Tiago declara que uma pessoa que faz do prazer o alvo da vida está em oposição a Deus (4:1-10). O prazer, como um fim em si mesmo, ocasiona dissenções, brigas civis e guerra (4:1,2), tira a única fonte de verdadeira satisfação na vida (4:3) e é adultério espiritual (4:4). O cristão deve fazer todo esforço para escolher entre Deus e o mal, como o fator controlador da vida (4:5,6). Aquele que verdadeiramente se submete ao Senhor terá alegria real (4:7-10). Há uma diferença, diz o autor, entre a submissão real e a presunção (4:11-5:6). A vida é incerta demais, e o cristão não deve usurpar a prerrogativa de Deus de julgar, planejar o futuro ou oprimir o pobre. Segue (5:7-20) uma exortação para a verdadeira conduta cristã num mundo que passa. Estes versículos são várias exortações à paciência e à indulgência, até a vinda do Senhor (5:7-12), e a atividades dentro da comunidade: oração, louvor, visita aos doentes, confissão dos pecados e restauração dos inconstantes (5:13-20).
